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Antes de mais nada, peço sinceras
desculpas à meu querido amigo-editor Leonardo Vinhas e aos
meus fiéis leitores (tem algum aí?) pela latente demora
em tirar o mofo das Fitas Mofadas. Pra ser sincero, nem foi tanto
por falta de tempo e preguiça, mas sim por um pouco de desânimo
e descaso com o que vinha assistindo ultimamente – com exceção
de “A Viagem de Chihiro”, justiça seja feita na Sala de Justiça
do Cinema.
Mas acontece que... há
pouco mais de meia hora acabei de assistir a uma cópia em
dvix de um filme ainda nem lançado por aqui (cópia
essa enviada por meu grande chapa carioca Fábio – valeu Fábio!).
Eu já tinha ouvido do Fábio e de outras pessoas elogios
rasgadíssimos desse filme, cujas referências praticamente
inexistiam para mim. O Fábio chutou o balde de cara e já
saiu gritando: “o melhor filme de horror do ano até agora!”
Como ele é um grande amante do gênero, confiei e botei
o disquinho no cd-rom do micro (tá, claro que não
é o melhor lugar pra ver filme, mas onde mais iria ver isso
a uma hora dessas?).
E, agora que o filme acabou e
as luzes do quarto se acenderam, posso dizer sem nenhum medo e constrangimento:
PUTA QUE O PARIU! É MESMO O MELHOR FILME DE HORROR DO ANO!!

Antes
que o amigo leitor ou leitora feche a janela do navegador por tanta
encheção de lingüiça, já vou dizer
de que filme se trata: May, dirigido por um tal de Lucky Mckee.
Quem? Pois é... quem. Nunca tinha ouvido falar no dito-cujo,
mas já sei que trata-se de alguém cheio de talento
e criatividade, que sobe a íngreme escada rumo à genialidade
cinematográfica (ui...). Exagero? Vai nessa, então.
May conta a história da
garota cujo nome é o título do filme, e que teve uma
infância perdedora a partir do momento em que ela descobre
ser estrábica (disfunção também conhecida
como “olho preguiçoso” ou – aqui no interior de São
Paulo – como “zóio doido”). Obrigada a ir pra escola com
um tapa-olho, ela já vê ir por água abaixo qualquer
chance de amizade com as outras crianças. Então, em
seu aniversário, a mãe lhe dá uma boneca guardada
numa caixa de vidro. “Se não pode ter amigos, faça
um”, é o “sábio” conselho da mãe. May então
atinge a juventude com um passado regado à solidão
e isolamento. Ela trabalha num hospital veterinário costurando
gatos e operando cachorros, ao lado de Polly, uma colega lésbica
atraída por ela. May então vê chances reais
de felicidade quando conhece Adam, e apaixona-se por tudo nele,
principalmente por suas... mãos. Essa é uma característica
de May, ficar notando beleza nos detalhes físicos das pessoas.
E as pessoas começam a realmente ser boas para May. Adam
lhe dá seu primeiro beijo, Polly sua primeira transa. Mas
aquela velha boneca que May ganhou de aniversário quando
criança começa a querer sair da caixa de vidro. E
conforme os novos supostos amigos começam a demonstrar à
ela o velho desprezo que ela conhecera e suportara por toda a vida,
May vai se dando conta de que talvez seja necessário substituir
a boneca em seu quarto por algo mais... orgânico.
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Talvez lendo esse resumo da trama
principal do filme possa ficar parecendo mais um desses teen horrors
na cola de Carrie a Estranha, do tipo “garota-revoltada-se-vinga-de-tudo-e-todos”.
Acontece que May está muito, muito longe disso. Pra começar,
olha só a influência principal do diretor Lucky Mckee:
Dario Argento, o mestre dos giallos (que eram aqueles thrillers
cheios de clima, ultra-violentos e sanguinolentos produzidos na
Itália nos anos 70 e 80). E não apenas no fato do
personagem Adam ser um estudante de cinema fanático por Dario
Argento (em dado momento do filme ele está indo assistir
a uma seção de “Trauma”, filme do diretor italiano).
Mas a influência imprime-se principalmente nas cenas de morte:
tudo feito com sangue “deep red”, closes nas feridas e requintes
de crueldade beirando o insuportável. As outras influências
de Mckee não poderiam ser melhores: o estadunidense Wes Craven,
autor de A Hora do Pesadelo e o japonês Takashi Miike, do
clássico contemporâneo do cinema extremo Audition.
De Craven, May toma emprestado o clima claustrofóbico e doentio,
e de Miike as explosões violentas e inesperadas. É
fácil neguinho fazer filme e falar “tenho influência
de fulano e ciclano”. Foda mesmo é ir lá e seguir
a cartilha à risca.
E o que faz de May essa maravilha
de filme que é não são apenas as cenas de violência
e bizarrices extremamente bem filmadas, mas a contraposição
delas com uma história triste e de clima predominantemente
sufocante e mórbido (e o mórbido não precisa
necessariamente estar relacionado com violência gráfica
– tente passar batido pela cena em que May esfrega compulsivamente
seu olho estrábico). Ah, e mais um detalhe: o final. Que
final! Prepara-se para um conflito entre suas lágrimas e
seu estômago.
Ah! E um toque aos leitores indies
do Lado 1: a trilha do filme está praticamente lotada de
música dos Breeders. Particularmente, não sou fã
do grupo da ex-baixista dos Pixies (sou mais os Catholics do Frank
Black), mas as canções casaram muito bem com o filme
(que nem o odioso Belle & Sebastian ficou legal em Histórias
Proibidas).

May
é um filme que deve ser visto por todos que apreciam filmes
inovadores, transgressores e originais, sejam eles fãs ou
não de horror. Cada vez maior é a prova de que a salvação
do cinema está mesmo na produção independente,
e nessa nova geração que a cada filme traz algo além
desse marasmo que assola o cinema comercial. Mesmo com uma distribuição
da Lions Gate (a mesma de Tiros em Columbine), é pouco provável
que o filme ganhe uma distribuição decente por aqui,
mesmo em vídeo/DVD. Isso se ganhar alguma. Mas não
importa, corra atrás do filme. E fique de olho nesse Lucky
Mckee. Pois, só por esse filme, ele já entra no seleto
clube composto por David Cronenberg, Takashi Miike, Paul Thomas
Anderson, Beto Brant e outros, clube este dos cineastas cujos próximos
trabalhos valem a pena serem esperados pelo público.
André ZP, até agora
impressionado pelo final de May. Como diriam aqui no interior...
“carái, fiii...”.