,

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Principal

 Editorial

 Cinema

 Música

 Literatura

 HQs

 Punho Próprio

 O Que Vier

 Colunistas

 Indicados

 Expediente

Cadastre-se Livro de Visitas Contato
 

 

 
:: MAY: CHUTANDO A BUNDA DO CINEMA BEM-COMPORTADO ::
por andré zp

Antes de mais nada, peço sinceras desculpas à meu querido amigo-editor Leonardo Vinhas e aos meus fiéis leitores (tem algum aí?) pela latente demora em tirar o mofo das Fitas Mofadas. Pra ser sincero, nem foi tanto por falta de tempo e preguiça, mas sim por um pouco de desânimo e descaso com o que vinha assistindo ultimamente – com exceção de “A Viagem de Chihiro”, justiça seja feita na Sala de Justiça do Cinema.
Mas acontece que... há pouco mais de meia hora acabei de assistir a uma cópia em dvix de um filme ainda nem lançado por aqui (cópia essa enviada por meu grande chapa carioca Fábio – valeu Fábio!). Eu já tinha ouvido do Fábio e de outras pessoas elogios rasgadíssimos desse filme, cujas referências praticamente inexistiam para mim. O Fábio chutou o balde de cara e já saiu gritando: “o melhor filme de horror do ano até agora!” Como ele é um grande amante do gênero, confiei e botei o disquinho no cd-rom do micro (tá, claro que não é o melhor lugar pra ver filme, mas onde mais iria ver isso a uma hora dessas?).
E, agora que o filme acabou e as luzes do quarto se acenderam, posso dizer sem nenhum medo e constrangimento: PUTA QUE O PARIU! É MESMO O MELHOR FILME DE HORROR DO ANO!!

Antes que o amigo leitor ou leitora feche a janela do navegador por tanta encheção de lingüiça, já vou dizer de que filme se trata: May, dirigido por um tal de Lucky Mckee. Quem? Pois é... quem. Nunca tinha ouvido falar no dito-cujo, mas já sei que trata-se de alguém cheio de talento e criatividade, que sobe a íngreme escada rumo à genialidade cinematográfica (ui...). Exagero? Vai nessa, então.
May conta a história da garota cujo nome é o título do filme, e que teve uma infância perdedora a partir do momento em que ela descobre ser estrábica (disfunção também conhecida como “olho preguiçoso” ou – aqui no interior de São Paulo – como “zóio doido”). Obrigada a ir pra escola com um tapa-olho, ela já vê ir por água abaixo qualquer chance de amizade com as outras crianças. Então, em seu aniversário, a mãe lhe dá uma boneca guardada numa caixa de vidro. “Se não pode ter amigos, faça um”, é o “sábio” conselho da mãe. May então atinge a juventude com um passado regado à solidão e isolamento. Ela trabalha num hospital veterinário costurando gatos e operando cachorros, ao lado de Polly, uma colega lésbica atraída por ela. May então vê chances reais de felicidade quando conhece Adam, e apaixona-se por tudo nele, principalmente por suas... mãos. Essa é uma característica de May, ficar notando beleza nos detalhes físicos das pessoas. E as pessoas começam a realmente ser boas para May. Adam lhe dá seu primeiro beijo, Polly sua primeira transa. Mas aquela velha boneca que May ganhou de aniversário quando criança começa a querer sair da caixa de vidro. E conforme os novos supostos amigos começam a demonstrar à ela o velho desprezo que ela conhecera e suportara por toda a vida, May vai se dando conta de que talvez seja necessário substituir a boneca em seu quarto por algo mais... orgânico.


Talvez lendo esse resumo da trama principal do filme possa ficar parecendo mais um desses teen horrors na cola de Carrie a Estranha, do tipo “garota-revoltada-se-vinga-de-tudo-e-todos”. Acontece que May está muito, muito longe disso. Pra começar, olha só a influência principal do diretor Lucky Mckee: Dario Argento, o mestre dos giallos (que eram aqueles thrillers cheios de clima, ultra-violentos e sanguinolentos produzidos na Itália nos anos 70 e 80). E não apenas no fato do personagem Adam ser um estudante de cinema fanático por Dario Argento (em dado momento do filme ele está indo assistir a uma seção de “Trauma”, filme do diretor italiano). Mas a influência imprime-se principalmente nas cenas de morte: tudo feito com sangue “deep red”, closes nas feridas e requintes de crueldade beirando o insuportável. As outras influências de Mckee não poderiam ser melhores: o estadunidense Wes Craven, autor de A Hora do Pesadelo e o japonês Takashi Miike, do clássico contemporâneo do cinema extremo Audition. De Craven, May toma emprestado o clima claustrofóbico e doentio, e de Miike as explosões violentas e inesperadas. É fácil neguinho fazer filme e falar “tenho influência de fulano e ciclano”. Foda mesmo é ir lá e seguir a cartilha à risca.
E o que faz de May essa maravilha de filme que é não são apenas as cenas de violência e bizarrices extremamente bem filmadas, mas a contraposição delas com uma história triste e de clima predominantemente sufocante e mórbido (e o mórbido não precisa necessariamente estar relacionado com violência gráfica – tente passar batido pela cena em que May esfrega compulsivamente seu olho estrábico). Ah, e mais um detalhe: o final. Que final! Prepara-se para um conflito entre suas lágrimas e seu estômago.
Ah! E um toque aos leitores indies do Lado 1: a trilha do filme está praticamente lotada de música dos Breeders. Particularmente, não sou fã do grupo da ex-baixista dos Pixies (sou mais os Catholics do Frank Black), mas as canções casaram muito bem com o filme (que nem o odioso Belle & Sebastian ficou legal em Histórias Proibidas).

May é um filme que deve ser visto por todos que apreciam filmes inovadores, transgressores e originais, sejam eles fãs ou não de horror. Cada vez maior é a prova de que a salvação do cinema está mesmo na produção independente, e nessa nova geração que a cada filme traz algo além desse marasmo que assola o cinema comercial. Mesmo com uma distribuição da Lions Gate (a mesma de Tiros em Columbine), é pouco provável que o filme ganhe uma distribuição decente por aqui, mesmo em vídeo/DVD. Isso se ganhar alguma. Mas não importa, corra atrás do filme. E fique de olho nesse Lucky Mckee. Pois, só por esse filme, ele já entra no seleto clube composto por David Cronenberg, Takashi Miike, Paul Thomas Anderson, Beto Brant e outros, clube este dos cineastas cujos próximos trabalhos valem a pena serem esperados pelo público.
André ZP, até agora impressionado pelo final de May. Como diriam aqui no interior... “carái, fiii...”.

Comentários, xingamentos e beijos para andre@quizumbafilmes.com

 

 

 

 

 

 

 

 

desenvolvido por lado 1